A nova produção do Veto Teatro Oficina

“Não se Ganha Não se Paga”

Publicado no Correio do Ribatejo em 6/1/212.

Não se ganha, não se Paga é a próxima produção do Veto Teatro Oficina. Peça do dramaturgo italiano Dário Fo, Nobel da Literatura (1997), escrita inicialmente em 1974, com o título de não se paga, não se paga e reescrita pelo mesmo autor em 2008 com o título que agora ostenta: Não se Ganha, não se paga.

Caracterizada como uma comédia “de intervenção”, esta é uma comédia de humor corrosivo que retrata a crise que se sente atualmente, de uma forma irónica por vezes, caustica por outras, brincado de uma forma muito séria com a crítica situação económica da nossa sociedade actual.

Cartaz

Antónia, uma das personagens participa num assalto a um supermercado e arrasta consigo a amiga margarida. O marido preso a sólidos princípios morais nem quer ouvir falar de roubar mercadorias, senão, ameaça “mato-te e, depois peço o divórcio”.

Um polícia filosofa sobre a essência da vida e o cinismo da nossa sociedade, a corrupção dos políticos, enquanto passa uma busca às casas do bairro e o guarda-republicano todo militarista, bem deste é melhor nem falar.

Um camião voltado na estrada e carregado de soda cáustica (transportava afinal mercearias contrafeitas: arroz, massa, açúcar), é o ponto de viragem e o tal marido dos fortes princípios morais repensa a sua posição na vida.

O teatro de intervenção político-laboral, Jogo de enganos, Reacção à crise do capitalismo? Tudo isso e muito mais. Mas, segundo Rui Monteiro em artigo na Time Out (9 de Fevereiro de 2010), também retorno feliz a um teatro dedicado, mesmo que por vezes um pouco enviesadamente, às coisas reais com que homens e mulheres concretos lidam. E disposto a apontar um caminho, por vezes duvidoso, contudo geralmente sincero, para além do conformismo ou da indiferença – o que faz pensar na ausência de uma dramaturgia portuguesa interessada nos movimentos sociais, no desinteresse dos autores pelas coisas realmente terrenas, ou se calhar na pura e simples inexistência de dramaturgos de tipo não-contemplativo, se calhar por dependerem um bocadinho demais do humor do Estado.

Alegoria à crise e às dificuldades com que a classe média e média baixa se deparam, Não se Ganha, Não se Paga, procura refletir sobre este difícil momento das nossas vidas, momento que o próprio Belmiro de Azevedo, conhecido como patrão da SONAE, em recente entrevista a um órgão de Com. Social, concluía da mesma forma: Não se ganha, não se paga.

Com estreia prevista para Fevereiro, no Teatro Taborda, (Círculo Cultural Scalabitano) em tom ligeiro, o espetáculo apresenta situações de grande comicidade e boa disposição, pois a crise é tão grande que só pode mesmo ser levada a rir.

Nuno Domingos

Sobre ccscalabitano

O Círculo Cultural Scalabitano é uma associação cultural fundada em 1954, com sede na Maestro Luís Silveira, em Santarém, reconhecida como Pessoa Colectiva de Utilidade Pública a partir de 15 de Fevereiro de 1990. Ver todos os posts de ccscalabitano

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