Correio do Ribatejo, 9 de Dezembro de 2011
A Situação e a Oposição no Círculo Cultural Scalabitano – A fundação e composição social

O ano de 1954 apresentou-se auspicioso para a cidade de Santarém e para o concelho, tendo ficado marcado pela construção de importantes obras públicas como a inauguração do Tribunal de Santarém, o início dos arranjos do Campo Sá da Bandeira e, conta-se ainda, como uma importante expressão do crescimento económico do distrito a criação da Feira do Ribatejo e a constituição do Círculo Cultural que resultou da fusão do Orfeão escalabitano e do Clube Literário Guilherme de Azevedo
A Fundação do CCS
Ora desta fusão resultou a formação de uma Comissão Administrativa(1) , cuja composição estava estabelecida no documento Bases para a Fusão do Clube Literário Guilherme de Azevedo e Orfeão Scalabitano elaborado pelas direcções das duas associações: “Esta Comissão será constituída por dezoito membros, nove de cada uma das colectividades fusionadas…”(2) . Continuaram a sua actividade cultural as secções que já constituíam anteriormente as duas agremiações: o Orfeão Scalabitano, a Orquestra Típica Ribatejana, o Curso de Iniciação Teatral “Actor Taborda”, o Coral Infantil Scalabitano e, ainda, a Biblioteca “Guilherme de Azevedo”. O nome de Círculo Cultural Scalabitano surgiu pela primeira vez num artigo do Correio do Ribatejo, na sua edição de 7 de Agosto de 1954.
Para que se possa conhecer os pioneiros desta acção, passamos a nomear os elementos dos seus corpos directivos: presidente – Artur Proença Duarte; 1º vice-presidente – Manuel d´Almeida Ginestal Machado; 2º vice-presidente – João da Silva Martins; 1º secretário – Américo Rodrigues de Passos e Silva; 2º secretário – Francisco Duarte Meireles; secretários adjuntos – Manuel Filipe; Gabriel Alves Alexandre; tesoureiro – Carlos Roque de Oliveira e Sousa; tesoureiro Adjunto – Manuel Marecos Henriques; vogais para o assunto dos estatutos – Alfredo Ferreira; Vasco Duarte; Leonardo Ribeiro de Almeida; José Carlos de Oliveira Sollas; vogais para os assuntos de instalação – Henrique Dias Ferreira; Artur Sousa Madeira Cabral; Nuno António de Oliveira; Gentil Duarte; vogal para a Orquestra Típica – Mário Martins Rodrigues; bibliotecário – Vasco Duarte.
O Relatório de 1954
No final do seu mandato, esta Comissão elaborou um Relatório onde referiu as diversas actividades concretizadas: o curso de teatro, com 30 alunos, dirigido pelo professor Carlos de Sousa, participou no “Sarau Garrettiano” organizado por ocasião das comemorações nacionais do centenário de Garret; o Orfeão Scalabitano, dirigido pelo professor Fernando Cabral concretizou três concertos radiofónicos, na Emissora Nacional; o Coral Infantil, dirigido então por Joel Canhão, depois da doença do maestro Luís Silveira que o veio a vitimar em 25 de Dezembro de 1954, contava com cento e vinte alunos, setenta dos quais no primeiro ano; a Orquestra Típica, então designada de Ribatejana, conduzida pelo maestro Casimiro Silva apresentou-se em dois concertos, a convite do SNI e o outro da TAP; a Biblioteca estava a ser catalogada.
Relativamente à “situação económica e financeira”, conforme seria de esperar, escreveu-se: “Pelos mapas juntos se vê, claramente, que é boa a situação económica e financeira da colectividade e que ela pode continuar a sua missão sem quebra de ritmo e sem perigo”.(3)
A caracterização socioprofissional
A primeira direcção eleita a 29 de Dezembro de 1954, tomou posse em 5 de Janeiro de 1955 e iniciou desde logo as suas funções.
Com 943 sócios, em 1955, o Quadro Demonstrativo das Profissões, Situações Económicas, etc. dos Associados (5) possibilitou a caracterização socioprofissional desta associação, verificando-se a existência de um grande número de funcionários da administração pública (154), de bastantes empregados no comércio e de escritório (164), de um número considerável de “Industriais” (101) e “Comerciantes” (165), de “Proprietários” (50), profissões liberais (médicos, médicos veterinários, advogados, engenheiros civis, agrónomos e silvicultores – 86), oficiais e sargentos do exército (44), domésticas (30) e ainda, as empresas (44). Os grupos sociais pouco representados são, como seria de esperar, os agricultores (3), “criados hoteleiros, de cafés, clubes, etc.” (7), padres católicos (1), operários e artífices (0) .(6)
Comungando com a expressão de Fernando Rosas(7) , predominavam no Círculo Cultural Scalabitano “a camada superior” do “vasto pântano das classes intermédias” urbanas, onde se excluíam, de vez, “as camadas inferiores” dos operários, artífices e serviçais. Os mais liberais, quando queriam levar as serviçais consigo aos bailes, tinham de as fazer passar por familiares .
O Círculo Cultural conheceu o seu período dourado neste lustro (1954-59) porque, na fusão das duas associações, prevaleceu o esforço da elite local, nomeadamente a elite política quer da Situação quer da Oposição.
Luísa Teixeira Barbosa
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(1) Círculo Cultural Scalabitano, Livro de Actas da Direcção, n.º 1, Acta de posse da Comissão Administrativa, 29 de Julho de 1954. Arq. C.C.S.
(2) Número II, § 2.º. Bases para a Fusão do Clube Literário Guilherme de Azevedo e Orfeão Scalabitano, [Julho de 1954], Arq. C.C.S..
(3) Círculo Cultural Scalabitano, Relatório da Comissão Administrativa, 1954. Arquivo do CCS.
(4) Círculo Cultural Scalabitano, Op. Cit, 27 de Dezembro de 1954.
(5) Círculo Cultural Scalabitano, 1955.
(6) Círculo Cultural Scalabitano, Relatório e Contas da Direcção Referentes à Gerência de 1955, 31 de Dezembro de 1955.
(7) “Os grupos sociais intermédios (…) não se limitavam, (…) às classes médias, isto é, à sua muito minoritária camada superior, constituída pelos pequenos e médios patrões da agricultura, da indústria e do comércio, associados aos estratos médios das profissões liberais, dos quadros ou do funcionalismo. O grosso das situações intermédias era constituído (…), pelos “camponeses médios”, pelo artesanato industrial e proto-industrial, o pequeno e pequeníssimo comércio lojista, e os “camponeses pobres”, os operários-camponeses ou artesãos, os trabalhadores familiares, os serviçais (…) a que se poderiam juntar os sectores mais pobres da pequena burguesia urbana (camadas inferiores dos empregados, do funcionalismo, etc.) (…) e constituíam a maioria sociológica da população”. Fernando Rosas “O Estado Novo” in José Mattoso (dir.) História de Portugal, vol. VII, Lisboa, Estampa, 1998.
(8) Testemunho de Lucinda Selqueira.