A Situação e a Oposição no Círculo Cultural Scalabitano

Publicado no Correio do Ribatejo no dia 25 de Novembro de 2011

(1954-1974)
Arranjos do Campo Sá da Bandeira, iniciados em 1954. Fonte Arquivo de Zeferino A. Silva
O Círculo Cultural festeja agora o seu 57º aniversário e, durante os 20 anos a que se referem os próximos artigos relativos à história da sua acção.
Esta associação deteve uma enorme presença e influência no panorama social e cultural da Cidade e também do país, à época sob o governo ditatorial e totalitário de Salazar. Este sucesso, num regime político que perseguia e dificultava a vida associativa de tradições democráticas, deveu-se essencialmente a um compromisso entre aqueles que na direcção, ou nas suas secções, representavam a Situação e aqueles que se manifestavam como Oposição ao regime que então se vivia. As associações, apelidadas neste período de colectividades, eram uma ameaça ao carácter Uno e Totalitário, estabelecido pela ditadura pois, o associativismo era herdeiro de um ideário liberal, republicano e democrático, ou seja, de ideias que defendem o desenvolvimento do país através da pluralidade e diversidade de ideias. Quais eram, então, as características da organização associativa? E qual a sua composição social CCS? Quem eram os representantes destas duas facções políticas? Que actividades se ligaram à acção da oposição, que actividades denunciaram o controlo do Estado Novo e quais as que reflectiam os conceitos culturais do Estado Novo?

O dinamismo social no pós – Grande Guerra

O Portugal, das décadas de 50 a 70, caracterizou-se por um processo de industrialização e terciarização da economia portuguesa, com a consequente urbanização, ou seja, a saída de pessoas ligadas ao campo com destino à cidade. A indústria cresceu a partir da década de 40 com a influência de uma corrente industrialista que exercia pressão sobre o governo de Salazar. Enquanto outros, aqueles cujos interesses estavam ligados ao ruralismo tradicional, tentaram impedir as reformas e a modernização. No entanto, o peso socioeconómico da agricultura diminuiu nestas décadas.
A década de 50, aquela em que o Círculo Cultural Scalabitano foi fundado, distinguiu-se, então, por um crescimento económico, reflectido no I Plano de Fomento de 1950, a partir do qual se iniciou o plano de hidráulica agrícola, povoamento florestal e colonização interna.
Apesar de tudo, o sector agrícola foi promovendo a sua lenta modernização: os grandes agrários do Ribatejo, aproveitaram uma linha de crédito e compraram máquinas agrícolas (Lei n.º 2017, de 1946), introduziram novos produtos mais rentáveis, como o arroz e o tomate, e aproveitaram a instalação das indústrias agro-alimentares que, além de absorver parte da mão-de-obra assim disponível, vieram complementar o papel dos novos investimentos agrícolas. Em consequência, no período entre 1950 e 1973, registou-se uma certa modernização e crescimento dos sectores de actividade da região .

O crescimento de Santarém

Esse crescimento, reflectiu-se na Cidade no ano de 1954 que “… manda a verdade que se diga, foi bom e próspero para a Cidade e para o Concelho”, referia-se assim o título de primeira página do Correio do Ribatejo , sobre a gerência do Município, cujo presidente da Câmara era, então, Jacob Pinto Correia. Durante este ano, o da fundação do Círculo Cultural Scalabitano, verificaram-se, entre outros melhoramentos, o início dos arranjos do Campo Sá da Bandeira, a aquisição do palácio do Provedor das Lezírias, onde se viria a instalar a Câmara Municipal, bem como a proposta, concepção e criação da Feira do Ribatejo que se estreou no mês de Maio de 1954.
Como seria de esperar, o crescimento dos sectores de actividade do Distrito reflectiu-se no crescimento da cidade de Santarém e no investimento que esses sectores aplicaram nas actividades culturais. Este curto período, entre 1955 e 1960, revelou-se de grande dinâmica social e cultural e foi espelho dessa breve conjuntura económica favorável. Por isso, o primeiro lustro de existência do Círculo Cultural Scalabitano foi o mais brilhante do período a que reportamos o artigo.

A Fusão

As razões que levaram à fusão do Orfeão Scalabitano e do Clube Literário Guilherme de Azevedo estão certamente ligadas com a falta de sede do Orfeão Scalabitano e as dificuldades económicas por que passava o Clube Literário Guilherme de Azevedo. O primeiro, instalado no Ginásio do Seminário, coabitava com outras organizações católicas que utilizavam o espaço e os desentendimentos não se fizeram esperar quando, em 1953, o Concerto Radiofónico mensal de Dezembro, que este coro tinha acordado com a Emissora Nacional, coincidiu com uma “intempestiva” reunião de um desses organismos de caridade . Por outro lado, a análise aos livros de contabilidade do Clube Literário, revelaram os problemas de receitas e as dificuldades de pagamento das despesas correntes. Assim, apesar dos interesses diversos, as duas associações, cuja experiência convivial se tinha revelado difícil no passado (data em que o Orfeão abandona o Teatro Taborda e se instala no Ginásio de Seminário), resolveram unir esforços e estabelecer um conjunto de regras que possibilitou resolver o problema da sede do Orfeão e a prossecução da acção cultural das duas agremiações sob uma nova designação e estatutos.
A fusão das duas associações concretizou-se no dia 29 de Julho de 1954 com a tomada de posse de uma Comissão Administrativa que, além de prosseguir com as actividades próprias às associações em causa, concretizaram obras de beneficiação da sede “graças ao precioso auxílio do sr. dr. Firmino da Silva Pereira, actual proprietário do edifício…” , e procedeu à marcação da necessária Assembleia-geral de sócios, para 27 de Dezembro de 1954, dando fundamento legal ao Círculo Cultural Scalabitano.

Este artigo tem por base a conferência Portugal Uno, Portugal Plural, proferida no Círculo Cultural Scalabitano a 18 de Maio de 2006 e resulta do aprofundamento do trabalho de investigação realizado pela autora nos Arquivos do CCS, complementado no Arquivo Distrital, no Arquivo da PIDE/DGS- ANTT, nos jornais escalabitanos, folhetos e outros livros de memórias relacionados, desde que ingressou na Direcção do Círculo Cultural Scalabitano, em 2001.

Consulte-se: Fernando Rosas, “O Estado Novo (1926-1974)”, História de Portugal, dir. de José Mattoso, vol. 7, Lisboa, Editorial Estampa, 1996.
19-2-55.
Consulte-se: Correio do Ribatejo, Janeiro de 1954.
Correio do Ribatejo, 2-10-54.

Sobre ccscalabitano

O Círculo Cultural Scalabitano é uma associação cultural fundada em 1954, com sede na Maestro Luís Silveira, em Santarém, reconhecida como Pessoa Colectiva de Utilidade Pública a partir de 15 de Fevereiro de 1990. Ver todos os posts de ccscalabitano

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