Arquivos Mensais: Dezembro 2011

A fundação e composição social

Correio do Ribatejo, 9 de Dezembro de 2011

A Situação e a Oposição no Círculo Cultural Scalabitano – A fundação e composição social

Primeira Direcção do CCS eleita em 27/12/1954

O ano de 1954 apresentou-se auspicioso para a cidade de Santarém e para o concelho, tendo ficado marcado pela construção de importantes obras públicas como a inauguração do Tribunal de Santarém, o início dos arranjos do Campo Sá da Bandeira e, conta-se ainda, como uma importante expressão do crescimento económico do distrito a criação da Feira do Ribatejo e a constituição do Círculo Cultural que resultou da fusão do Orfeão escalabitano e do Clube Literário Guilherme de Azevedo

A Fundação do CCS

Ora desta fusão resultou a formação de uma Comissão Administrativa(1) , cuja composição estava estabelecida no documento Bases para a Fusão do Clube Literário Guilherme de Azevedo e Orfeão Scalabitano elaborado pelas direcções das duas associações: “Esta Comissão será constituída por dezoito membros, nove de cada uma das colectividades fusionadas…”(2) . Continuaram a sua actividade cultural as secções que já constituíam anteriormente as duas agremiações: o Orfeão Scalabitano, a Orquestra Típica Ribatejana, o Curso de Iniciação Teatral “Actor Taborda”, o Coral Infantil Scalabitano e, ainda, a Biblioteca “Guilherme de Azevedo”. O nome de Círculo Cultural Scalabitano surgiu pela primeira vez num artigo do Correio do Ribatejo, na sua edição de 7 de Agosto de 1954.
Para que se possa conhecer os pioneiros desta acção, passamos a nomear os elementos dos seus corpos directivos: presidente – Artur Proença Duarte; 1º vice-presidente – Manuel d´Almeida Ginestal Machado; 2º vice-presidente – João da Silva Martins; 1º secretário – Américo Rodrigues de Passos e Silva; 2º secretário – Francisco Duarte Meireles; secretários adjuntos – Manuel Filipe; Gabriel Alves Alexandre; tesoureiro – Carlos Roque de Oliveira e Sousa; tesoureiro Adjunto – Manuel Marecos Henriques; vogais para o assunto dos estatutos – Alfredo Ferreira; Vasco Duarte; Leonardo Ribeiro de Almeida; José Carlos de Oliveira Sollas; vogais para os assuntos de instalação – Henrique Dias Ferreira; Artur Sousa Madeira Cabral; Nuno António de Oliveira; Gentil Duarte; vogal para a Orquestra Típica – Mário Martins Rodrigues; bibliotecário – Vasco Duarte.

O Relatório de 1954

No final do seu mandato, esta Comissão elaborou um Relatório onde referiu as diversas actividades concretizadas: o curso de teatro, com 30 alunos, dirigido pelo professor Carlos de Sousa, participou no “Sarau Garrettiano” organizado por ocasião das comemorações nacionais do centenário de Garret; o Orfeão Scalabitano, dirigido pelo professor Fernando Cabral concretizou três concertos radiofónicos, na Emissora Nacional; o Coral Infantil, dirigido então por Joel Canhão, depois da doença do maestro Luís Silveira que o veio a vitimar em 25 de Dezembro de 1954, contava com cento e vinte alunos, setenta dos quais no primeiro ano; a Orquestra Típica, então designada de Ribatejana, conduzida pelo maestro Casimiro Silva apresentou-se em dois concertos, a convite do SNI e o outro da TAP; a Biblioteca estava a ser catalogada.
Relativamente à “situação económica e financeira”, conforme seria de esperar, escreveu-se: “Pelos mapas juntos se vê, claramente, que é boa a situação económica e financeira da colectividade e que ela pode continuar a sua missão sem quebra de ritmo e sem perigo”.(3)

A caracterização socioprofissional

A primeira direcção eleita a 29 de Dezembro de 1954, tomou posse em 5 de Janeiro de 1955 e iniciou desde logo as suas funções.
Com 943 sócios, em 1955, o Quadro Demonstrativo das Profissões, Situações Económicas, etc. dos Associados (5) possibilitou a caracterização socioprofissional desta associação, verificando-se a existência de um grande número de funcionários da administração pública (154), de bastantes empregados no comércio e de escritório (164), de um número considerável de “Industriais” (101) e “Comerciantes” (165), de “Proprietários” (50), profissões liberais (médicos, médicos veterinários, advogados, engenheiros civis, agrónomos e silvicultores – 86), oficiais e sargentos do exército (44), domésticas (30) e ainda, as empresas (44). Os grupos sociais pouco representados são, como seria de esperar, os agricultores (3), “criados hoteleiros, de cafés, clubes, etc.” (7), padres católicos (1), operários e artífices (0) .(6)
Comungando com a expressão de Fernando Rosas(7) , predominavam no Círculo Cultural Scalabitano “a camada superior” do “vasto pântano das classes intermédias” urbanas, onde se excluíam, de vez, “as camadas inferiores” dos operários, artífices e serviçais. Os mais liberais, quando queriam levar as serviçais consigo aos bailes, tinham de as fazer passar por familiares .
O Círculo Cultural conheceu o seu período dourado neste lustro (1954-59) porque, na fusão das duas associações, prevaleceu o esforço da elite local, nomeadamente a elite política quer da Situação quer da Oposição.

Luísa Teixeira Barbosa
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(1) Círculo Cultural Scalabitano, Livro de Actas da Direcção, n.º 1, Acta de posse da Comissão Administrativa, 29 de Julho de 1954. Arq. C.C.S.
(2) Número II, § 2.º. Bases para a Fusão do Clube Literário Guilherme de Azevedo e Orfeão Scalabitano, [Julho de 1954], Arq. C.C.S..
(3) Círculo Cultural Scalabitano, Relatório da Comissão Administrativa, 1954. Arquivo do CCS.
(4) Círculo Cultural Scalabitano, Op. Cit, 27 de Dezembro de 1954.
(5) Círculo Cultural Scalabitano, 1955.
(6) Círculo Cultural Scalabitano, Relatório e Contas da Direcção Referentes à Gerência de 1955, 31 de Dezembro de 1955.
(7) “Os grupos sociais intermédios (…) não se limitavam, (…) às classes médias, isto é, à sua muito minoritária camada superior, constituída pelos pequenos e médios patrões da agricultura, da indústria e do comércio, associados aos estratos médios das profissões liberais, dos quadros ou do funcionalismo. O grosso das situações intermédias era constituído (…), pelos “camponeses médios”, pelo artesanato industrial e proto-industrial, o pequeno e pequeníssimo comércio lojista, e os “camponeses pobres”, os operários-camponeses ou artesãos, os trabalhadores familiares, os serviçais (…) a que se poderiam juntar os sectores mais pobres da pequena burguesia urbana (camadas inferiores dos empregados, do funcionalismo, etc.) (…) e constituíam a maioria sociológica da população”. Fernando Rosas “O Estado Novo” in José Mattoso (dir.) História de Portugal, vol. VII, Lisboa, Estampa, 1998.
(8) Testemunho de Lucinda Selqueira.


Sarau comemora 57 anos cheios de vida

O Círculo Cultural Scalabitano comemorou no passado sábado dia 3 de Dezembro, o seu 57º aniversário, com uma gala que decorreu no renovado Teatro Taborda.
Actuaram as secções e academias, numa demonstração da vitalidade e da diversidade de oferta cultural que atualmente oferecem a Santarém.
Em breve intervenção de abertura, o presidente da associação, reconheceu o momento difícil que todo o movimento associativo atravessa, devido à crise e à ausência de pagamento de compromissos assumidos por algumas entidades, mas reforçou a importância da actividade desenvolvida para a oferta cultural de Santarém e agradeceu a todos os voluntários, professores e mestres que têm tornado possível ao Círculo manter a sua atividade, desde sempre pautada por elevados padrões de qualidade, envolvendo semanalmente mais de um milhar de ativistas.
Quanto ao espectáculo propriamente dito, entendido mais como uma festa, dedicou parte substantiva da sua programação à apresentação de aspectos menos conhecidos da atividade cultural do Círculo Cultural Scalabitano.
A abertura esteve a cabo da Oficina da Música com duas guitarradas pelo jovem João Pedro Limeiros de apenas 7 anos, bandolim da Orquestra Típica Scalabitana que Interpretou “Canto Amor” de Carlos Paredes e “Fado Corrido” de Alfredo Marceneiro. Seguiu-se-lhe a também jovem Rita Figueiredo, soprano da Orquestra Típica Scalabitana, que interpretou “What a Wonderful World” (versão imortalizada por Louis Armstrong), “Senhora do Mar” e “Chuva” (música popularizada por Marisa).
Seguiu-se a intervenção do Jardim do Tango que nasceu há 2 anos no Círculo Cultural Scalabitano, onde dá as suas aulas regulares aos domingos. São a mais recente oficina desta associação, mas têm participado em vários espectáculos e festivais internacionais, como o Festival de Sitges (Barcelona, Espanha), onde a sua paixão e dedicação fez deles a figura do cartaz da sua próxima edição. Vasco Serranho e Carla Cruz dançaram “Por una Cabeza”, um original de Carlos Gardel, num primeiro momento e mais tarde “De Mis Tiempos”, uma milonga, o ritmo mais “crioulo” do tango argentino.
O Grupo An!mal nasceu em 2007 formado por alunos da Escola Alexandre Herculano que, após terminar os estudos naquela escola, quiseram continuar o seu clube de teatro. O seu professor Rui Lopes veio ter ao Círculo e ao Veto e a sintonia foi perfeita. Desde essa altura no seio do Círculo, entre nós, têm participado todos os anos no projecto PANOS, uma organização da CulturGest, tendo apresentado um dos seus trabalhos: “O Gajo”, texto ícone do grupo.
Vertente eventualmente menos conhecida do trabalho que se desenvolve no Círculo, a Academia de Esgrima Histórica e Artística, estruturada em três componentes: Formação Desportiva, Formação Histórica e Artística e Grupo de Recreação Histórica “Scalabitanus” que está no CCS desde 2001. No sarau, apresentaram algumas técnicas de combate Medieval e Renascentista, num momento que talvez pela surpresa criada, suscitou o interesse de inúmeras pessoas em inscrever-se para aprender esta nobre arte das escolas portuguesas e europeias.
A professora Encarnação Noronha e as suas alunas da Academia de Dança e Expressão Corporal trouxeram ao sarau o Ballet com uma coreografia criada a partir do tema “LOVE” (imortalizada por Nat King Cole). No palco do Teatro Taborda, estiveram alunas de dois níveis de aprendizagem do Ballet: Avançado e Grau 7.
O Veto Teatro Oficina apresentou um excerto do espectáculo “Beatriz Costa, uma Mulher Admirável”, também ele um excerto do filme “Aldeia da Roupa Branca”.
Neste pedaço, não apareceu a grande atriz, mas com o Veto, fomos à aldeia ver como vão os carregos de roupa para Lisboa e a festa, num quadro da mais viva comicidade.
O Sarau terminou com um convite a todos os presentes para dançar um tango, pelo que o palco se encheu de alegria e risadas, numa demonstração de que a cultura está viva e o Círculo é de facto uma associação de referência da cidade.

Nuno Domingos


A Situação e a Oposição no Círculo Cultural Scalabitano

Publicado no Correio do Ribatejo no dia 25 de Novembro de 2011

(1954-1974)
Arranjos do Campo Sá da Bandeira, iniciados em 1954. Fonte Arquivo de Zeferino A. Silva
O Círculo Cultural festeja agora o seu 57º aniversário e, durante os 20 anos a que se referem os próximos artigos relativos à história da sua acção.
Esta associação deteve uma enorme presença e influência no panorama social e cultural da Cidade e também do país, à época sob o governo ditatorial e totalitário de Salazar. Este sucesso, num regime político que perseguia e dificultava a vida associativa de tradições democráticas, deveu-se essencialmente a um compromisso entre aqueles que na direcção, ou nas suas secções, representavam a Situação e aqueles que se manifestavam como Oposição ao regime que então se vivia. As associações, apelidadas neste período de colectividades, eram uma ameaça ao carácter Uno e Totalitário, estabelecido pela ditadura pois, o associativismo era herdeiro de um ideário liberal, republicano e democrático, ou seja, de ideias que defendem o desenvolvimento do país através da pluralidade e diversidade de ideias. Quais eram, então, as características da organização associativa? E qual a sua composição social CCS? Quem eram os representantes destas duas facções políticas? Que actividades se ligaram à acção da oposição, que actividades denunciaram o controlo do Estado Novo e quais as que reflectiam os conceitos culturais do Estado Novo?

O dinamismo social no pós – Grande Guerra

O Portugal, das décadas de 50 a 70, caracterizou-se por um processo de industrialização e terciarização da economia portuguesa, com a consequente urbanização, ou seja, a saída de pessoas ligadas ao campo com destino à cidade. A indústria cresceu a partir da década de 40 com a influência de uma corrente industrialista que exercia pressão sobre o governo de Salazar. Enquanto outros, aqueles cujos interesses estavam ligados ao ruralismo tradicional, tentaram impedir as reformas e a modernização. No entanto, o peso socioeconómico da agricultura diminuiu nestas décadas.
A década de 50, aquela em que o Círculo Cultural Scalabitano foi fundado, distinguiu-se, então, por um crescimento económico, reflectido no I Plano de Fomento de 1950, a partir do qual se iniciou o plano de hidráulica agrícola, povoamento florestal e colonização interna.
Apesar de tudo, o sector agrícola foi promovendo a sua lenta modernização: os grandes agrários do Ribatejo, aproveitaram uma linha de crédito e compraram máquinas agrícolas (Lei n.º 2017, de 1946), introduziram novos produtos mais rentáveis, como o arroz e o tomate, e aproveitaram a instalação das indústrias agro-alimentares que, além de absorver parte da mão-de-obra assim disponível, vieram complementar o papel dos novos investimentos agrícolas. Em consequência, no período entre 1950 e 1973, registou-se uma certa modernização e crescimento dos sectores de actividade da região .

O crescimento de Santarém

Esse crescimento, reflectiu-se na Cidade no ano de 1954 que “… manda a verdade que se diga, foi bom e próspero para a Cidade e para o Concelho”, referia-se assim o título de primeira página do Correio do Ribatejo , sobre a gerência do Município, cujo presidente da Câmara era, então, Jacob Pinto Correia. Durante este ano, o da fundação do Círculo Cultural Scalabitano, verificaram-se, entre outros melhoramentos, o início dos arranjos do Campo Sá da Bandeira, a aquisição do palácio do Provedor das Lezírias, onde se viria a instalar a Câmara Municipal, bem como a proposta, concepção e criação da Feira do Ribatejo que se estreou no mês de Maio de 1954.
Como seria de esperar, o crescimento dos sectores de actividade do Distrito reflectiu-se no crescimento da cidade de Santarém e no investimento que esses sectores aplicaram nas actividades culturais. Este curto período, entre 1955 e 1960, revelou-se de grande dinâmica social e cultural e foi espelho dessa breve conjuntura económica favorável. Por isso, o primeiro lustro de existência do Círculo Cultural Scalabitano foi o mais brilhante do período a que reportamos o artigo.

A Fusão

As razões que levaram à fusão do Orfeão Scalabitano e do Clube Literário Guilherme de Azevedo estão certamente ligadas com a falta de sede do Orfeão Scalabitano e as dificuldades económicas por que passava o Clube Literário Guilherme de Azevedo. O primeiro, instalado no Ginásio do Seminário, coabitava com outras organizações católicas que utilizavam o espaço e os desentendimentos não se fizeram esperar quando, em 1953, o Concerto Radiofónico mensal de Dezembro, que este coro tinha acordado com a Emissora Nacional, coincidiu com uma “intempestiva” reunião de um desses organismos de caridade . Por outro lado, a análise aos livros de contabilidade do Clube Literário, revelaram os problemas de receitas e as dificuldades de pagamento das despesas correntes. Assim, apesar dos interesses diversos, as duas associações, cuja experiência convivial se tinha revelado difícil no passado (data em que o Orfeão abandona o Teatro Taborda e se instala no Ginásio de Seminário), resolveram unir esforços e estabelecer um conjunto de regras que possibilitou resolver o problema da sede do Orfeão e a prossecução da acção cultural das duas agremiações sob uma nova designação e estatutos.
A fusão das duas associações concretizou-se no dia 29 de Julho de 1954 com a tomada de posse de uma Comissão Administrativa que, além de prosseguir com as actividades próprias às associações em causa, concretizaram obras de beneficiação da sede “graças ao precioso auxílio do sr. dr. Firmino da Silva Pereira, actual proprietário do edifício…” , e procedeu à marcação da necessária Assembleia-geral de sócios, para 27 de Dezembro de 1954, dando fundamento legal ao Círculo Cultural Scalabitano.

Este artigo tem por base a conferência Portugal Uno, Portugal Plural, proferida no Círculo Cultural Scalabitano a 18 de Maio de 2006 e resulta do aprofundamento do trabalho de investigação realizado pela autora nos Arquivos do CCS, complementado no Arquivo Distrital, no Arquivo da PIDE/DGS- ANTT, nos jornais escalabitanos, folhetos e outros livros de memórias relacionados, desde que ingressou na Direcção do Círculo Cultural Scalabitano, em 2001.

Consulte-se: Fernando Rosas, “O Estado Novo (1926-1974)”, História de Portugal, dir. de José Mattoso, vol. 7, Lisboa, Editorial Estampa, 1996.
19-2-55.
Consulte-se: Correio do Ribatejo, Janeiro de 1954.
Correio do Ribatejo, 2-10-54.


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