ASSOCIATIVISMO II DO MODELO À ACÇÃO

Publicado no Correio do Ribatejo em 18/11/11

No último número iniciei neste espaço uma reflexão sobre as Associações Culturais e um modelo de acção para o seu funcionamento.

Terminei enunciando algumas preocupações directamente ligadas ao seu funcionamento e, mais importante, à postura que considero deve ser aquela que deverão privilegiar, tendo terminado o artigo anterior numa referência ao papel a desempenhar pelos voluntários na organização.

Hoje em dia esse papel é cada vez mais reconhecido e também cada vez mais procurado a diversos níveis e áreas da intervenção na comunidade. Assim acontece nas organizações de economia social, assim acontece no desporto, assim acontece cada vez mais nas instituições da “economia cultural”, se se me permite a expressão.

De resto, na essência do funcionamento da quase totalidade das instituições culturais não governamentais do nosso concelho, e muitas são, o que mais se vê são voluntários: nos grupos de teatro, nos grupos corais, em boa parte dos activistas das bandas filarmónicas, nos ranchos folclóricos, na gestão de associações e colectividades, etc. Por outro lado, se observarmos com atenção, até na maioria dos investimentos em arte pública (estátuas, bustos, etc.) ou na construção de equipamentos (como os teatros por exemplo), é destacada a participação dos chamados elementos da sociedade civil, com maior ou menor participação de mecenas, com alguma ou nenhuma participação do estado.

Importa pois reconhecer o papel desses agentes e procurar ampliar a sua base social de recolha, estimulando a sua participação, encontrando espaços para a sua participação, descobrindo maneiras de aproveitar o que cada um tem para oferecer, disponibilizando espaços e tempos de reconhecimento e prazer no acto de dar e participar.

A este respeito e conquanto se viva um tempo de egoísmos e singularidades, de formas de comunicação cada vez mais pessoais e solitárias, a oportunidade, até pelo contexto de crise, de poder encontrar com outros e redescobrir prazeres que começam a estar arredados da nossa esfera corrente de comunicação alargada, pode constituir alternativa relevante e relevantemente atractiva. Assim a consigamos apresentar de forma atractiva e interessante, desafiadora e carregada de simbolismo.

A ampliação de um tal movimento participativo, só poderá ter reflexos convenientes junto de possíveis mecenas, propiciando o reconhecimento claro do papel desempenhado pela nossa instituição e da sua importância, elemento facilitador do interesse e do possível apoio.

Um último aspecto para o qual pretendo chamar a atenção, é para o factor de que mais se tem falado nos tempos correntes e que designamos comummente como mercado. A este respeito, tendo em atenção que diferentes propostas permitem diferentes aproximações a diferentes potenciais mecenas, importa ressalvar que um planeamento a 5 anos pode permitir antecipação da negociação de apoios mecenáticos e por outro lado, criar tendências e hábitos junto do público, permitindo promover a venda antecipada e coerente de ingressos (política de bilhete válido por um ano, permitindo entrada em diferentes espectáculos), acolher diferentes participações desde a pequena doação de quem só pode contribuir com a quota mensal, a quem é capaz de apoiar de outra forma, criando respostas no seio da organização para todas estas participações.

Poderia se quisesse dar inúmeros exemplos de acções concretas dos agentes culturais de Santarém ou do resto do país relativos a cada uma das propostas que no conjunto destes dois artigos aqui referi. Naturalmente que aqui, como em tudo na vida, parti da realidade para o possível desenvolvimento do modelo. Importaria, no entanto, passar dessa constatação avulsa para uma acção integrada e estruturada, estrategicamente pensada, única forma que actualmente concebo de reinventar esta realidade quase intemporal que é constituída pelo mundo do associativismo cultural.

Esse é o verdadeiro desafio com que estamos confrontados e, na actual situação de crise em que vivemos, poderá representar papel de acrescido valor e relevância social.

Nuno Domingos

Sobre ccscalabitano

O Círculo Cultural Scalabitano é uma associação cultural fundada em 1954, com sede na Maestro Luís Silveira, em Santarém, reconhecida como Pessoa Colectiva de Utilidade Pública a partir de 15 de Fevereiro de 1990. Ver todos os posts de ccscalabitano

Uma resposta to “ASSOCIATIVISMO II DO MODELO À ACÇÃO”

  • Olívia Felícia de Almeida Prates Canelas

    E é de facto porque estamos em tempo de crise não só económica mas também cultural e de cidadania que as associações poderão e deverão ter um papel cada vez mias activos para poderem ajudar a “formar pessoas ” com capacidade crítica e de intervenção social. A grande questão que a mim se me coloca é como levar as pessoas a participar activamente quando efectivamente os salários baixam, as poucas regalias são tiradas, a fome vão fazendo sentir-se… De barriga vazia é dificil enveredar por caminhos mais longos, que ainda que vislumbrando melhore futuro demora muito tempo, secalhar demasiado tempo a alcançar. Mas estamos aí na procura das soluções e não na persist~encia do problema e da vitimização. Olivia Canelas

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